
Quem volta a escola não começa do zero.
O que acontece quando uma pessoa retorna à escola depois de anos, ou décadas, longe da sala de aula?
Ela não chega apenas com conteúdos que precisa recuperar. Chega com trabalho, filhos, contas, experiências profissionais, conhecimentos construídos fora da escola e, muitas vezes, o medo de não conseguir aprender. Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), ensinar começa antes da explicação: começa pela escuta.
Essa reflexão ganha força com a criação do Programa Nacional de Formação para a Docência na Educação de Jovens e Adultos (ProfEJA), instituído pelo Ministério da Educação para qualificar profissionais da modalidade.
Neste artigo, você vai entender por que a EJA exige práticas próprias e o que pode ajudar o estudante adulto não apenas a voltar, mas a permanecer na escola.
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ToggleA EJA atende pessoas que não tiveram acesso à escola ou não concluíram os estudos na idade considerada regular. Essa definição, porém, não revela toda a diversidade de uma turma.
Na mesma sala podem estar um jovem que deixou a escola para trabalhar, uma mãe que interrompeu os estudos para cuidar dos filhos, um trabalhador que busca crescimento profissional e uma pessoa idosa realizando um desejo adiado.
Por isso, tratar a EJA como uma versão acelerada do ensino regular é insuficiente. Os conteúdos escolares continuam essenciais, mas precisam dialogar com diferentes ritmos, expectativas e trajetórias.
Em julho de 2026, o MEC instituiu o Programa Nacional de Formação para a Docência na Educação de Jovens e Adultos (ProfEJA). A iniciativa integra o Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação da EJA e organiza a formação continuada em três etapas.
Primeiro, a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão, em parceria com instituições federais de ensino superior, forma profissionais responsáveis pela atuação regional.
Depois, esses formadores trabalham com equipes pedagógicas locais. Por fim, as redes de ensino organizam a formação de professores e educadores populares.
A proposta combina atividades presenciais, encontros on-line e cursos autoinstrucionais. Também aborda história e normas da EJA, currículo, busca ativa, mundo do trabalho e contextos específicos da modalidade.
A criação do programa reconhece que ensinar jovens, adultos e idosos requer preparação própria.
Escutar não significa abandonar o currículo. Significa conhecer os estudantes, identificar o que já sabem, compreender suas dificuldades e considerar seus objetivos.
Um estudo publicado na Educar em Revista sobre reciprocidade e acolhimento na EJA destaca a importância da história de vida, dos conhecimentos prévios e dos interesses dos estudantes na organização do trabalho pedagógico.
Isso muda a relação com o saber. Um trabalhador da construção civil pode dominar medidas e proporções sem utilizar a linguagem matemática formal. Quem administra a renda familiar já mobiliza noções de cálculo e planejamento. Quem participa de associações comunitárias pode trazer conhecimentos sobre cidadania e direitos.
A função da escola não é apenas reconhecer esses saberes. É partir deles para ampliar a leitura do mundo e garantir acesso ao conhecimento científico, linguístico, histórico e cultural.

Trabalho, família e vergonha os desafios da permanência.
Para muitos estudantes da EJA, faltar à aula não é uma escolha simples. Mudanças de turno, horas extras, falta de transporte, doença de um filho ou ausência de apoio familiar podem interromper a frequência.
Também existem obstáculos menos visíveis. Algumas pessoas retornam com lembranças de reprovação, humilhação ou fracasso escolar. Outras sentem vergonha de ler em voz alta, escrever diante dos colegas ou admitir que não compreenderam uma atividade.
Quando a escola interpreta essas situações apenas como desinteresse, pode reforçar o afastamento. A evasão resulta da combinação entre condições de vida, organização escolar, vínculos e experiências de aprendizagem.
Acolher não significa oferecer um ensino superficial. Significa criar condições para que o adulto aprenda sem ser infantilizado.
Algumas práticas fazem diferença:
A permanência começa quando o estudante percebe que a escola respeita seu tempo e acredita em sua capacidade.
Trabalhar com a EJA exige domínio de planejamento, alfabetização e letramento, avaliação, currículo e políticas educacionais. Exige também sensibilidade para reconhecer que nenhum estudante adulto chega vazio à sala de aula.
A Graduação em Pedagogia Semipresencial da Unifacvest prepara profissionais para diferentes contextos educacionais, incluindo projetos de Educação de Jovens e Adultos. Para conhecer outras possibilidades da carreira, consulte o guia Tudo sobre Pedagogia.
A Graduação em Letras – Português Semipresencial também prepara docentes para atuar na modalidade.
Pedagogia e Letras – Português são caminhos para quem deseja participar da reconstrução de trajetórias interrompidas, mas não encerradas.
Veja também:
A matrícula marca a volta. A permanência é construída diariamente: no acolhimento, no respeito à autonomia, na relação entre conteúdo e experiência e na confiança de que ainda é possível aprender.
O que uma escola precisa fazer para que o estudante adulto não apenas retorne, mas permaneça?
É uma modalidade da Educação Básica destinada a jovens, adultos e idosos que não iniciaram ou não concluíram os estudos na idade regular.
Professores licenciados, pedagogos, gestores e outros profissionais da educação podem atuar, conforme a etapa de ensino, a função e as exigências da rede.
Porque os estudantes apresentam diferentes trajetórias, ritmos de aprendizagem e condições de vida. A formação ajuda o educador a planejar práticas adequadas sem infantilizar o público.
Não existe uma medida isolada. A permanência depende de acolhimento, acompanhamento das ausências, flexibilidade responsável e práticas pedagógicas significativas.